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domingo, 25 de maio de 2008

Cirurgia Estética, a moda do século XXI


Quando a minha directora "gentilmente sugeriu" que realizasse uma reportagem sobre Cirurgia Estética fiquei um pouco, como posso dizer, enfadada e sem vontade, já que nessa mesma semana tinha saido noutra revista da casa, a Focus, um artigo de capa sobre este mesmo tema. Porém, como um pedido de um chefe não se pode recusar tentei fazer o melhor. Após a reportagem ter sido publicada, o certo é que recebi uma carta de uma leitora onde relata a sua história comovente de vida, onde há anos espera que a operação ao peito que tanto anseia seja razõ suficiente para voltar a sorrir!

Esta é uma das razões que me leva a amar esta profissão de paixão! Um elogio de uma simples desconhecida tem outro sabor quando é feito com toda a simplicidade e quando apenas se baseia nas nossa palavras!

Por agora fica aqui o artigo publicado...


Combater a imperfeição

Apesar de a "beleza ser uma tirania de curta duração segundo o filósofo Sócrates, o certo é que não há ser humano que não tente que essa breve passagem do tempo seja realizada da melhor ámaneira... Seja com extensas idas ao ginsio, dietas milagrosas ou simplesmente com o recurso à cirurgia plástica. Tudo em nome da perfeição estética!

Segundo a mitologia grega, Narciso, "fascinado pela sua própria beleza" terá caído num lago, afogando-se, vítima da sua própria vaidade. Reportando essa lenda, aos dias de hoje, verifica-se a existência de muitos "narcisos/as", que movidos pelas exigências da actual sociedade, consumem a sua vida no culto idolátra da sua figura. O seu corpo é a fonte principal do seu ego, enquanto a imagem é o "heroína" da história.
São as pessoas que "praguejam" contra o aparecimento de uma ruga que teima em não desaparecer, stressam com a imperfeição de um peito mais pequeno ou de uns glúteos pouco evidentes... Nada que surpreenda! Desde sempre, o ser humano "partiu por mares nunca antes navegados" à procura da perfeição! Basta recordar, o aparecimento dàdiva milagrosa no que diz respeito aos desígnios da beleza.
O século XXI não poderia fugir à modernidade e ao avançar das novas tecnologias que trazem consigo a promessa do "Forever Young", juventude essa que até o mais comum dos mortais anseia encontrar um dia!

Estamos na era da imagem... A preocupação de possuir um corpo esbelto e definido faz agora parte das mentes da filha, mãe e até da avó. E a verdade é que há quem passe horas a fio a esforçar-se nas máquinas ou nas aulas de fitness, somente para que a sua silhueta seja "reconhecida e aprovada", e há as que preferem terem resultados imediatos a curto prazo, sem que para isso seja preciso "suar".
É neste momento que entra a "fórmula mágica desta época": Cirurgia estética, o antídoto para resolver as imperfeições indesejadas, cada vez mais usado por aqueles que querem sorrir novamente ao olharem-se a um qualquer espelho.

Do tamanho 36 para um quase 32
A decisão já estava tomada há um ano e todo o processo mais que pesquisado. Ao viajar no tempo, altura que tinha 25 anos, lembra-se de sentir orgulho no seu 36 copa B... era um motivo de vaidade! Devido às aulas de fitness que começou a dar, como o Body Attack e X55, a desmotivação ganhou expressão, e um peito mole e cheio de peles associado a um número "34 a fugir para o 32" incentivaram-na a tomar medidas.
Zaina Malveiro decidiu que aos 29 anos estava na altura de ir em frente e aumentar o peito. "Consultei três médicos, já que não é uma decisão que se deve tomar de ânimo leve, o primeiro disse-me uma coisa, o segundo outra e fiquei totalmente baralhada. O terceiro foi aquele que me inspirou mais confiança, explicou-me tudo, os prós e contras e mandou-me ir para casa para reflectir mais uma vez. Tentei obter o máximo de indicações sobre o doutor para que tivesse a garantia que estava apto legalmente", conta.
Na segunda consulta, a instrutora de ginástica a part-time e técnica de informática tempo inteiro recebeu mais informações sobre a operação. "O médico viu que não havia necessidade de deslocar o músculo, acabando por colocar a prótese por cima do peitoral. A seguir, forneceu-me as guias para fazer todos os exames exigidos, mamografia, ecografias, como era desportista e nova não foi preciso fazer a prova de esforço pedida".
Como se custam dizer, "há terceira é de vez", e na última consulta marcaram o dia da mamoplastia...

"Fundamental verificar as qualificações do médico"
A decisão de Zaina Malveiro em consultar vários especialistas, recolhendo assim diversas opinióes é para os entendidos na matéria a mais acertada.
"Vivemos uma altura estranha onde temos dois sectores: as pessoas altamente qualificadas e aquelas que fizeram um curso por exemplo de lipoaspiração 'por correspondência', e depois na garagem de sua casa realizam uma meia dúzia de operações. Isto passa-se em todo o lado do mundo. É fundamental verificar as qualificações da pessoa que escolhe para fazer a operação. Por outro lado, podem também ir ao site da Ordem dos Médicos pesquisar onome do profissional e confirmar se está inscrito. Até pode ser menos simpático ou ter havido uma empatia menor, mas é uma garantia, uma certeza, de que teve a formação necessária", esclarece João Anacleto, cirurgião plástico que realiza operações no hospital Amadora-Sintra.

Visando que este tipo de especialidade não é linear, já que existe várias possibilidades para resolver o mesmo problema, o médico dispensa os eternos "clichés" de que estas cirurgias são inteiramente "viradas" para pessoas ricas, futéis e que vivem no mundo do "parecer bem é lei". "Quando desconhecem é muito fácil de dizer mal, não é mais válido reconstruir um tendão de alguém que teve um acidente, do que aumentar ou diminuir o peito de uma pessoa que não se sente feliz com o tamanho. Não tenho muita paciência para esse tipo pensamentos. Claro que há exageros como em todo o lado, não se pode é rotular toda a gente com a mesma definição. Por exemplo, nunca se pode alegar que todos os árabes existentes na terra são maus só porque existe um Osama Bin Laden, o mesmo se aplica neste caso. Há que ter ciente que uma rinoplastia ou uma abdominoplastia é uma cirurgia, portanto a pessoa deve querer fazê-la, única e exclusivamente, por ela e não pelos outros".
Foi isso que aconteceu a Zaina Malveiro a 31 de Março de 2008, uma decisão pensada e repensada levou-a até a uma sala de operações...

Pós operatário: "Passei algumas noites em branco"
"Cheguei por volta das 8h00, estavam duas pessoas à minha espera para me dar as indicações sobre o procedimento", recorda Zaina. Quando entrou na sala de operações, antes da anestesia começar a fazer efeito, reparou que se encontravam dois médicos, a anestesista e mais três enfermeiras. "Foi tudo muito rápido, durou cerca de uma hora, quando acordei já estava no meu quarto, com as ligadura à volta do peito e com um soutien especial que temos de comprar previamente e que posteriormente temos de usar durante um mês".
O que lhe fez mais confusão foram os drenos (um tubo de plástico que expele o sangue estragado da operação) que tinha em cada axila. Após seis horas de descanso, sem dores, onde a fome foi enganada com pacote de bolachas e chá, a instrutora regressou a casa pelo próprio pé e com o "peito dos seus sonhos".
O que veio a seguir é que nunca mais vai esquecer... "O pós operatório foi o pior, mas sei que varia de pessoa para pessoa. Primeiro tinha de estar sempre na mesma posição, fosse numa cama, numa cadeira... Coloquei 245 mililitros, no fundo é quase meio quilo a mais, este peso, o qual não estava habituada, fez com que ficasse com dores horríveis nas costas. Passei algumas noites em branco, sem dormir e mesmo sem querer tive de recorrer aos comprimidos para colocar o sono em dia", relata.
Para a jovem, o mais difícil sem dúvida foi a nível psicológico, a sensação de invalidez não se adequava ao seu estilo deveras activo. "Ficar um mês sem dar aulas foi o que mais me custou, até para conduzir estava limitada".
Passado três semanas, aos poucos está recuperar a sua rotina, apesar de ainda sentir algum desconforto. "Agora já aguento melhor estas dores, já não são nada agressivas e já consigo me pôr de lado para dormir".
Cconfessando que o resultado não poderia ter sido melhor, adianta no entanto que ficou assustada quando se olhou pela primeira vez ao espelho. "A minha reacção foi: o médico enganou-se!!! Tinha o peito muito inchado, não estava nada habituada. Com o tempo foi perdendo volume e agora não podia estar mais feliz. Passaram-me um certificado de garantia das próteses, acho que vou emoldurar", diz entre risos, acrescentando: "Não o fiz porque alguém me disse que ficava bem ou por simples capricho, fi-lo por opção própria, quando se quer, tudo se consegue, no fundo isto é uma cirurgia estética, quando vai ficar algo diferente no nosso corpo temos de estar realmente convictos e certos daquilo que desejamos", conclui.

Falta de fiscalização eficaz
"Tudo está bem quando acaba bem", pode-se aplicar ao caso de Zaina, como na maioria das cirurgias estéticas que se praticam em Portugal. Mas há sempre uma excepção e infelizmente algumas operações mal feitas terminaram da pior forma: a morte do paciente. Há bem pouco tempo, uma mulher de 24 anos foi sujeita a uma liposaspiração na zona da cintura. Os sucessivos vómitos e mau estar após o tratamento levaram a que se queixasse ao médico, o qual lhe receitou anti-inflamatórios, antibióticos e analgésicos. As dores continuaram e a 15 de Janeiro de 2008, Fátima Santos, moradora em Olhão, foi encontrada morta no chão da casa de banho da sua casa, pelo marido. Resultado da autopsia: Tromboembolismo pulmonar, uma das complicações mais frequentes nas cirurgias.

"Tanto quanto sei não há uma legislação muito lógica sobre a cirurgia de ambulatório, e estas não devem ser feitas em consultórios mas infelizmente há quem as faça. Claro que é um negócio, como o jornalismo no seu caso também o é, presta um serviço que é o de informar, mas recebe por esse trabalho. Mas antes de ser muito rentável, é um trabalho que mexe com as vida das pessoas, por isso acima de tudo há que ser profissionalmente correcto", elucida o médico João Anacleto, que vai mais longe. "Há duas situações onde não existe ética nenhuma. A primeira está relacionada com a poupança de dinheiro. Muitas vezes, opero por exemplo, no hospital CUF de Cascais, e os doentes têm de pagar o aluguer da sala, os medicamentos, etc...isso é caro, mas sabem que reúne as condições todas, para que caso acha complicações, a unidade está preparada para as combater. Se conseguem fazer isso na garagem da sua casa é obvio que é mais barato, mas totalmente errado. Por outro lado, para realizar uma cirurgia em alguns sítios tem de se apresentar ao director clínico as credenciais e estas tem de ser válidas no país onde estão. Não consigo operar no Hospital da Luz se não mostrar o meu currículo, o meu cartão da Ordem dos Médicos e da Sociedade de Cirurgia Plástica. É lógico se se deixa operar qualquer um que tenha tirado o curso num fim de semana, as coisas não podem correr bem. Tem de haver legislação".
A Sociedade Portuguesa de Cirurgia Pl‡stica Reconstrutiva e Estética tem vindo a alertar para o facto de existirem em Portugal algumas clínicas não habilitadas a realizar estes tipo de cirurgia, já que este negócio tentador está a provocar um aumento de profissionais, que apesar de não estarem qualificados, executam à mesma.

Em declarações a um jornal diário, Vítor Santos Fernandes, presidente do colégio da especialidade de Cirurgia Plástica, Reconstrutiva e Estética da Ordem dos Médicos (OM), explicou que embora seja eticamente reprovável que um médico execute uma intervenção para a qual não está tecnicamente preparado a Ordem não o proíbe tal como a lei.
Neste sentido, o facto de não haver fiscalização eficaz e o comportamento de muitos médicos não ser o mais ético, há que ser o paciente a tomar os cuidados necessários para não cair literalmente nas mãos erradas.


In: Mulher Moderna na Edição 1001

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