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quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Não foi fácil...

Não foi fácil... Quando decidi fazer esta reportagem sabia que não ia ser, mas ao entrar no sub-mundo dos meninos de rua em Cabo Verde, o não ser fácil tornou-se em complicado, em difícil digestão. Olhar para um miúdo de 16 anos, a mexer-se como um toxicodependente, a falar como um ressacado que anseia a cada palavra, pelo vício. Não foi fácil... Olhar as feridas nos braços, os olhos carregados de vazio. Demasiadas sensações, pensamentos que me cortaram o sono durante algumas noites.

Para aqueles que não têm hipotese de comprar o Expresso das Ilhas aqui fica a reportagem desta semana. Não posso deixar de agradecer o apoio e paciência de uma pessoa que se disponibilizou a mostrar-me todos os lugares e a dar-me algumas informações preciosas. Obrigada Redy.

De mãos dadas com a rua



Não têm leis nem regras paternais. A rua é a sua melhor amiga, a droga a companheira persuasiva que não os abandona por nada deste mundo. São meninos. São amantes de um prazer envenenado. São simplesmente reais.

Tem um sonho. Tal como todos os meninos da sua idade. Há noite, imagina que tem à sua espera uma cama quente, um copo de leite, acompanhado de um beijo da mãe. Afectos antes de fechar os olhos para dormir. Ilusões meras ilusões, no pensamento desta criança que mal conhece a palavra afecto.
A realidade é bem diferente da sonhada. Cada noite… um lugar diferente para descansar o corpo e a mente. Pernoitar à porta de uma loja chinesa ou nas escadas de uma igreja. Não há lençóis ou almofada. Tenta-se “gostar” do chão frio, tenta-se conviver com o lixo, a sujidade que “respira” à sua volta.
Não há bonecos de peluche ou soldadinhos de chumbo dispostos pelo “quarto”, alias, as paredes são invisíveis. Há somente o silêncio obscuro da noite que o deixa de sentinela. O perigo espreita em cada esquina, porta, travessa ou ruela. Quando reza não pede bicicletas, playstations ou uma simples bola de futebol, pede antes ao tal “Deus superior” que consiga acordar de manhã, para sobreviver, mais um dia, num mundo, onde a única lei é “não se deixar abater”.

A história de um menino de rua. Podia ser igual como tantas outras. Mas não é. As próximas linhas têm a ambiguidade de relatar a “perversidade” de menores que, com cerca de oito anos, se iniciam nas teias da droga. Não são simples meninos de rua… São astutos, desconfiados, autênticos artistas na arte de roubar e ao mesmo tempo, frios, manipuladores. Criam sistemas de defesa, mas todos, lá no fundo querem o mesmo. O desejo de um dia sair da rua.

Três mil escudos por dia

Robinho (nome fictício) acordou, hoje, no meio de mais nove crianças. Nem sempre é assim. Quando o corpo está cansado, depois de uma caminhada pela noite dentro à procura de droga e, de uma oportunidade para roubar, o rapaz deixa-se adormecer no primeiro passeio que lhe aparece. Mas hoje conseguiu chegar ao chamado “Prédio”, perto do Cartório Notarial, que serve de abrigo a infâncias perdidas. Ali não há lugar para lamechices ou melodramas, todos são adultos à força. Num primeiro piso encontra-se a casa de banho, onde a sujidade sobe pelas paredes, instalando-se como um inquilino desejado. Num segundo andar, o dormitório. Cinco colchões espalhados pelo espaço que acolhem as crianças, os mosquitos, os ratos e o sem-abrigo que “comanda as tropas”. O líder. “Está o dia inteiro a passar droga, mas também a consumir, fazemos tudo o que ele nos manda”, confessa Robinho.
Visto como um protector, o “chefe” ameniza as brigas dentro do grupo, impedindo que os mais velhos batam nos mais novos. Uma autêntica comunidade, onde tudo o que se traz da rua (dinheiro, droga, comida, roupa) é dividido por todos. Contudo, para poderem pernoitar naquele espaço têm de pagar uma taxa, como se fosse uma residencial ou uma pensão. “Tem de se trazer sempre algo”. Apenas há uma regra lá dentro: é proibido roubar.

São 12h00. A ansiedade pela droga favorita, o chamado cocktail (uma mistura de crack com “padjinha”) começa a sussurrar na cabeça de Robinho. A fome também já aperta. Há que colocar mãos à obra para que a ressaca passe. Normalmente, o “dinheiro angariado” é através do peditório nas ruas do Platô, local de grande movimentação, onde “os turistas” são o alvo preferido para a sua “demanda”. Em média, por dia, cerca de três mil escudos vão parar ao bolso do menino de rua. Por mês (a trabalhar de segunda a sexta) consegue cerca de 60 mil escudos.“Os turistas, as pessoas brancas são fáceis de enganar. Quando nos oferecem comida, tento estar atento à espera de uma distracção para, por exemplo, apanhar a carteira ou o móvel. As pessoas de cá já nos conhecem, agora os de fora olham para nós como uns coitadinhos e, assim fazemo-nos de vítimas”, conta.

Várzea, Sucupira ou Achadinha. Escolha diversificada, vários locais onde a venda de droga não é controlada nem vigiada. Basta visitar o mercado mais conhecido da capital e visualizar as transacções em plena luz do dia. Robinho opta por se dirigir à Várzea, “pois a droga do Parque 5 de Julho não é boa. Fazem muitas misturas”. Depois de consumado o acto, o menino de 16 anos, que anda de mãos dadas com a rua há 9, escolhe almoçar no Sucupira, onde as vendedeiras lhe dão comida e, por vezes, roupa em troca de objectos roubados. Alias, o pior inimigo das lojas chinesas são os meninos de rua, que através de um “jogo de esperteza” roubam produtos dos estabelecimentos num piscar de olhos e, sem ninguém dar conta.
Depois do almoço, vaguear pelas ruas, pedir, roubar, preparar-se para chegada da noite. Durante a madrugada, Robinho vagueia pelas ruas à procura de droga, como se tratasse de um louco. E como ele próprio diz a cabeça “já não está boa”.

A história

A mãe de Robinho veio para Cabo Verde, fugida da guerra que assombrava o seu país natal. Quando a paz chegou à Guiné, quis o destino que regressasse mas…sem o seu pequeno. Com cerca de cinco anos, ficou ao encargo da avó e do padrasto que “tinha muitas vacas no Paiol”. Face à convivência com o filho do padrasto que se drogava, começou a consumir. “Fugia de casa da minha avó e ia para lá. Ele punha-me a drogar. Não estava contente com a minha ‘dona’. Ela queria dormir cedo e eu queria andar ao deus dará”, conta.
Pouco tardou para que adoptasse as travessas e ruelas como o seu novo lar. A rua trouxe-lhe verdadeiros “amargos de boca”. Violado por um homem mais velho e alvo constante de discriminação, por ser um menino de rua (o que faz com que carregue um forte estigma social, já que é muitas vezes identificado como um bandido ou um vagabundo), mas também no seio dos meninos de rua, onde é chamado de “mandjaku” nome pejorativo que se dá aos imigrantes africanos.

Contando no currículo com algumas visitas à esquadra da polícia, Robinho explica, como por vezes, os pequenos se tornam informantes. “Se não queremos dizer nomes ou dar informações, batem-nos, dão-nos murros na cara e ameaçam-nos de morte. Tenho uma camisa cheia de sangue”. Uma tese defendida por alguns sociólogos, (estudaram este fenómeno) que admitem existir uma relação de promiscuidade entre as crianças, os adultos criminosos e os polícias. Por outro lado, Robinho faz tudo pelos amigos. “São a minha família”. Para os estudiosos, a associação em grupo surge como uma forma de melhor sobreviverem num espaço adverso, onde tentam substituir aquilo que nunca tiveram em casa. (amizade, cumplicidade). E a verdade é que os grupos protegem-se através de uma solidariedade entre eles, mantendo uma relação estranha, de amor/ódio. Se por um lado, se portegem uns aos outros na relação com o meio exterior, no interior do grupo qualquer coisa pode ser razão para brigas e zangas.
No futuro, Robinho quer ser um homem “grandioso” “ir para a escola e não roubar” mas confessa que só quando a cabeça ficar boa…

“Não quero mais”

A sua figura identifica-o de imediato como um menino da rua. Umas calças de ganga rasgadas, t-shirt dois números acima, cabelo crespo com aspecto deslavado, uns pés descalços, unhas impregnadas de sujidade, com feridas causadas pelas picadas constantes dos mosquitos. “Não tens roupa limpa? E sapatos não tens?” “Tenho sim, mas desta forma as pessoas ainda têm mais pena de mim”. Assim é Pedro (nome fictício), um menino de rua bem diferente dos outros. Não rouba, só pede nas avenidas mais movimentadas da Praia.
“O puto ingénuo” como é conhecido pela sua comunidade de amigos conhece os vícios e as artimanhas da “vida sem regras” desde os oito anos. Neste momento já conta com 16 anos. O pai, polícia de profissão, abandonou a mãe, mais os oito filhos por uma outra mulher. A irresponsabilidade paternal que tanta vezes afecta as famílias cabo-verdianas fez “mais uma vez das suas”. De acordo com as últimas investigações sobre este assunto, a pobreza, violência familiar, insucesso escolar e conflitos com colegas e professores pode levar ao “princípicio” do sub-mundo (toxicodepêndencia, exploroção sexual e agressões). Pedro começou a sair de casa e só a voltar à noite. A aventura valeu-lhe umas boas bofetadas da mãe. Era sempre assim quando decidia fazer o que queria. A escola ficou pelo caminho a acenar-lhe com um “até um dia… talvez”. “Estava sempre em brigas com os meus colegas”.

Foi pelo mar que decidiu ficar na Praia. “Houve um amigo que me desafiou para ir à praia da Gambôa. Nunca tinha visto o mar. Nesse dia ficamos a dormir na rua. Nunca mais sai de lá”. Tinha oito anos.
É dos poucos que, de vez em quando, visita a família, mas não aguenta ficar muito tempo. “Estou viciado na rua”, conta. A droga surgiu como uma consequência natural do dia a dia. Fumou ganza e pedra, sentiu-se acelerado, não havia limite. Hoje, quando os seus parceiros de rua acendem o “cigarro envenenado” ele afasta-se. “Não quero mais”, diz com um abanar de cabeça constante, como se isso fosse uma das suas verdades inquestionáveis. “Os outros meninos consomem muito e andam toda a noite atrás da droga, têm a cabeça dura”.
Da mãe, assassinada há pouco tempo pelo padrasto, não guarda recordações de afecto ou amor. “Sabes o que é carinho? Alguma vez a tua mãe te deu um beijo ou um abraço”. Depois de um silêncio profundo, Pedro baixa os olhos e responde “Não, a minha mãe é pobre…”.

A primeira vez que teve um contacto mais íntimo com uma menina foi ainda na sua terra natal com uma vizinha mais velha, “muito bonita”. Mas agora na rua, o prazer sexual aparece “pintado” de outra forma. No Parque 5 de Julho, espaço que no antigamente era palco de espectáculos culturais, meninas com 19 e 20 anos oferecem favores sexuais em troca de dinheiro para a droga. “Dou 100 ou 250 escudos e faço com elas. Uso sempre preservativo, têm sempre. Todos os miúdos fazem isso”, conta.
Traficantes, prostitutas, polícia, vendedeiras, toxicodependentes, são todos personagens da história de Pedro, mas que nunca assumem um papel de destaque. “Ninguém manda em mim, só faço o que quero”.
De manhã passa o corpo pela água disponível no Parque, lava os dentes com as mãos, pois só quando vai a casa é que tem direito a uma escova e a um pouco de pasta. Não faz “recados” a pedido dos traficantes, mas admite que os amigos servem de pombos correios para transportar droga. “Levam-na de um sítio para outro, não há o risco de as crianças ficarem com a droga, pois sabem se são apanhados a vida termina nesse minuto”, salienta.

Quando o Expresso o encontrou, Pedro já tinha tomado o pequeno-almoço no Sucupira e iniciado o seu peditório pela Avenida Amílcar Cabral. 400 escudos em apenas duas horas. Preparava-se para ir almoçar para depois à tarde dividir o seu tempo em jogar nas máquinas ou a regressar ao Platô. Quando se despediu, uma única frase: “Quando a cabeça ficar boa, quero sair daqui”, Afinal não é o que todos desejam?

Os meninos do Porto da Praia

Noite longa. Não há candeeiros. Só a lua permite visualizar alguma coisa. Pouca. As grutas do cais. Solitárias e sombrias, ninguém arrisca a passar por ali. A fama persegue o lugar. Só eles, é que, durante algum tempo, adoptaram aquela espécie de “lar esconderijo”. Eram conhecidos como os meninos do “pé de rotcha”, os mais perigosos e os únicos que utilizavam armas de fogo. Soldados controlados pelos criminosos que operavam na zona. Durante o dia mantinham-se na sua “habitação”. Dentro dela, cozinhavam, dormiam, faziam as suas necessidades… Tal como os morcegos, durante a noite saíam para o Platô, local onde impera a movimentação, para roubar. Nada escapava às mãos
Em 2006 a “festa” acaba… Todos são presos e os que não são, jamais regressam à antiga casa. Procuram outros líderes, protectores e outros amigos. Sucupira, Várzea ou Achadinha são agora os sítios de eleição.

Dura Realidade

Dois dos critérios escolhidos para ser líder dos meninos de rua são a agressividade e a habilidade para roubar.
Os antigos meninos de rua são também os que vendem droga os chamados “delears” e também lavam carros.
O lucro das suas actividades (lavagem de carros e barcos de pesca, rolamento de bidões, carregamentos de sacos das compras, ajuda na arrumação dos mercados, roubos a pessoas e a residências) são utilizados para as suas necessidades básicas como a comida, droga e roupa.
Segundo alguns meninos de rua, nas épocas festivas, a policia vai buscá-los como forma de os proteger dos mais velhos, como são exemplo, os Thugs, mas também para prevenir que eles assaltem casas ou roubem pessoas. Segundo os últimos estudos, apesar de não haver dados estatísticos oficiais, estima-se que a reincidência crimninal está cada vez mais alta.


In "Expresso das Ilhas"

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

A moment like this...


Quarta-feira... 18h30. Sou só eu e ele. Juntos como um só. O cantar do mar, permanece ali mesmo ao lado. O calçadão está à minha espera. Começo o jogging com os últimos raios de sol... estão no meu horizonte. Não é para todos... mas se é só para quem pode quero aproveitar estes momentos até ao último minuto. O bater das ondas nas rochas. O coração acelera cada vez mais. Cada passo rápido, sentimento de liberdade. Ele começa a despedir-se. Agora os alogamentos e o silêncio da noite. O espelho de água e a brisa suave. São instantes como este, que me fazem cada vez mais apaixonar por esta terra crioula.

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Transexual diferente de homossexual. Há dúvidas?

Definição de jornalista. “São aqueles que, como ocupação principal, permanente e remunerada, exercem funções de pesquisa, recolha, selecção e tratamento de factos, notícias ou opiniões, através de texto, imagem ou som, destinados a divulgação informativa pela imprensa, por agência noticiosa, pela rádio, pela televisão ou por outra forma de difusão electrónica.
Dever do mesmo. “Exercer a actividade com respeito pela ética profissional, informando com rigor e isenção”.
Por isso muito me espanta que em pleno século XXI, haja jornalistas que não saibam a diferença entre transsexuais e homossexuais.
Passo a explicar... O jornal “A Semana”, um dos mais lidos em Cabo Verde, na sua última edição, escolhe para título: “Homossexual Assumido”. Num país, onde a homossexualidade encontra-se camuflada, escondida, onde as palavras lésbicas e gays são difíceis de pronunciar, nada como “agitar as águas” e despertar as mentes para uma realidade controversa. Até aqui nada a apontar… alias só elogiar pela atitude jornalística em desbravar novos caminhos.
Quando se começa a ler a dita reportagem é que “a porca torce o rabo”, como se diz em bom português.

Passo a citar alguns excertos: “Cabral acha que carrega um corpo e uma alma de mulher, apesar de ter sexo masculino”, “Sou um ser humano como qualquer outro, com defeitos e qualidades, e não acho que isto (a homossexualidade) seja um defeito”, “Sou uma mulher na cabeça, no corpo, e na forma de sentir, portanto quando olho para um homem vejo oposto”. Estas são as palavras de Emanuel Cabral, 22 anos, estudante do 12º ano de escolaridade que conta a sua história à publicação cabo-verdiana. Confuso?
Duas anotações: A primeira é que se um jornalista não sabe do assunto que foi destacado a cobrir, primeiramente faz pesquisa, tenta recolher o máximo de informação sobre a temática. Caso isso tivesse acontecido, talvez o autor da notícia soubesse que há diferenças entre homossexuais e transsexuais e bastava um pequeno clique na wikipedia.
Transsexualidade: "É a condição considerada pela Organização Mundial de Saúde como um tipo de transtorno de identidade de género, refere-se à condição do indivíduo que possui uma identidade do género, diferente da designada no nascimento, tendo o desejo de viver e ser aceite como sendo do sexo oposto. Usualmente, os homens e as mulheres transsexuais apresentam uma sensação de desconforto ou impropriedade do seu próprio sexo anatómico. A explicação estereotipada é de "uma mulher presa num corpo masculino".
Homossexualidade: "Define-se por atracção física, emocional, estética e espiritual entre seres do mesmo sexo.
A segunda. Poderá o leitor pensar, mas Emanuel admite que gosta de homens? É correcto, mas numa sociedade onde a maioria considera este tema como uma autêntica aberração, que não merece ser discutido, é dever do jornalista explicar correctamente, para que não provoque ainda mais confusão.

Ao empregar-se o nome de homossexual a um transsexual está-se a dizer que “todos os homossexuais desejam ser mulher”. Falsidades e mais falsidades. Se a função de um jornalista é clarificar há que o fazer correctamente e intrinsecamente. Emanuel é apenas um homem que quer ser mulher pois é assim que a sua alma se sente. Um homossexual não deseja ser mulher, apenas nutre sentimentos pelo mesmo sexo. Cabo Verde tem um longo caminho a percorrer, no que diz respeito, a ultrapassar certos obstáculos e barreiras, mas quem tem hipótese de ajudar nesta demanda que o faça “com cabeça, tronco e membros” e não só porque fica bem na capa de um jornal e assim esgota-se a edição nas bancas. A curiosidade é indissociável do ser humano, mas há que aguçar essa curiosidade com a mais pura das verdades…

Todos erramos… é correcto, já falhei tantas vezes e mais vezes hei-de o fazer… agora meus senhores e minhas senhoras, a quem por vezes falta a modéstia e humildade, humildade essa necessária a qualquer publicação, este erro é uma bofetada de luva branca e para bom entendedor meia palavra basta…

Cardápio de doenças: é só escolher

Duas semanas.... Dores de cabeça, gripe, tosse, dores de barriga, diarreia, conjuntivite, alergia na cara e para finalizar, a cereja em cima do bolo, uma intoxicação alimentar.

Cabo Verde trouxe-me o menu e eu escolhi: um rol de doenças e infecções para me acompanhar nestes primeiros dias de aventura. E que companheiras me saíram! Com elas trouxeram vários presentes... Idas à farmácia, onde o dinheiro fugiu-me da carteira como o ladrão da polícia, noites mal dormidas, o facto de me sentir mal ao olhar ao espelho (as pequenas e dezenas de borbulhas cintilantes davam-me sempre os bons dias) e um dia deitada, numa clínica privada, onde os meus amigos predilectos foram uma injecção de penicilina e uma garrafa de soro.

A minha melhor amiga disse-me uma frase que me marcou. “Tu consegues complicar o complicado”. A adaptação a um habitat novo nunca é fácil. Agora tudo ao mesmo tempo? Sou um caso a ser estudado!

terça-feira, 14 de outubro de 2008

De volta... Agora em terras crioulas!!!!!


Cabo Verde. A sua história repleta de pequenos e grandes acontecimentos marcam uma identidade colectiva e viva. As memórias do antigamente combinam com pequenos apontamentos de “cheirinho” a modernidade... Mas ainda somente a meio gás.
Terra de Morabeza, que canta e encanta na arte de receber, terra ligada ao mar e às lendas de outras épocas. A presença do rio, do monte, dos espelhos de água. Dotes paisagísticos que contrastam com mentalidades que ficaram paradas no tempo.
Sigo em direcção a um "paraíso privado". Assim quero pensar. Olho para trás e despeço-me com um “até já” daquela que será sempre “nhakretxeu!”. A eterna cidade das sete colinas... Lisboa serás sempre menina e moça.
Em frente aguarda-me uma aventura em terras crioulas. Cabo Verde, a África mais parecida com a Europa, mas ao mesmo tempo, com rasgos de uma realidade que choca, impressiona quem está habituada a uma pobreza camuflada, escondida. Aqui ela está exposta sem fingimentos, de uma maneira que fere os olhos....
A primeira lufada de ar quente... As primeiras emoções e sentimentos. Uma única sensação: good vibes. Tudo é diferente, nada é parecido. O cheiro vindo das cozinhas das pequenas habitações atulhadas por toda a capital. Cachupa, cus cus. O olfacto está confuso... quer sentir os aromas que percorrem a cidade pouco iluminada.
Com a noite a caminhar a passos largos, torna-se imperceptível espreitar o que se passa lá fora. Agora. No momento. Tenho todo o tempo do mundo para desvendar os segredos desta terra e perder-me apaixonadamente por ela.
Muitas curvas. Solavancos em estradas ainda rudimentares. Vão me dizendo os nomes. Entram no ouvido como autênticos desconhecidos. Plateau, Achada de Santo António, Terra Branca… Palmarejo. O meu novo lar. Melhor dizendo perto daquela que é considerada uma das zonas mais “cool” da cidade de Praia. A minha casa. O exterior escuro, lembrando os ghettos do Rio de Janeiro ou bairros sociais como a Cova da Moura e Zona J. Não há medo, antes uma sensação de nostalgia. Não me intimido com o espaço. Nada acontece por acaso… Amor à primeira vista. Uma habitação que acertou-me como uma flecha. Gosto dela logo ao primeiro olhar. Arejada, fresca, pitoresca. Africana. Linda…
Estou a viver em Cabo Verde! Nada será como antes…
FOTO BY Redy Wilson