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terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Para não esquecer!

Ela entrou meio tímida com a tal cara do "está tudo bem, estou feliz!" Os seus gestos, expressões são de quem está a fazer de tudo para que não se repare... Quem não a conhecia, como eu, percebeu de imediato que aquele não era o seu comportamento normal. "Tentar disfarçar o que não se consegue". Quando as marcas não estão escondidas não é preciso ser um génio para entender...

Em poucas palavras, o nervosismo... Ela temia a tal pergunta. Até que surgiu. "Como é que fizeste essa nódoa negra no olho?... Caí, tive um acidente!"

A coragem falta para fazer mais questões, todas naquele espaço sabíamos que a resposta não era a verdadeira, mas ninguém teve a "ousadia" de fazer mais nenhuma pergunta.

Sentia-se a vergonha no rosto daquela mulher que além de carregar uma enorme depressão na alma, carrega também, segundo uma amiga, vários hematomas no corpo.

As únicas palavras que se ouvia baixinho: coitada! ... Foi inevitável o sentimento de pena.

Quando as estatísticas saem cá para fora, a confirmar que cada vez há mais mulheres a sofrer de violência doméstica, os números assustam-nos... mas apenas naqueles segundos em que se lê a notícia.

Com as muitas tarefas diárias que temos de realizar, acabamos por ocupar a nossa mente com outros problemas mais chegados, com outros pensamentos mais intímos, com outras dores mais próximas. Simplesmente esquecer, não pensar mais nisso...

Hoje ainda não consegui deixar de pensar naquela mulher... Talvez por ter chocado de frente com a sua fragilidade, medo, preocupação em não dar nas vistas.

Sentimento de impotência... Da próxima vez que a encontrar, talvez, fale com ela. Talvez, uma simples palavra de conforto, de uma quase desconhecida, a ajude de alguma forma.

Não sei... Talvez, mas o talvez a mim não me custa ... e antes que me esqueça, devido às multíplas tarefas diárias que tenho sempre para fazer, resolvi escrever este post para me lembrar sempre!

1 comentário:

Johnny disse...

Não estou a dizer que isto não é uma triste realidade, nem a desculpar quem quer que seja.
Mas para quem estiver mais atento, há muitas (in)verdades em toda estas histórias de violência doméstica. Não por parte das verdadeiras vitimas, mas por quem pode decidir e legislar.
Assim vajamos uma noticia que saio no Publico no link (http://ultimahora.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1364914).
Eu pensava que a APAV contabilizava queixas e não crimes. Não basta fazer uma chamada para a APAV para se falar em crime. Atenção! A proposta de Lei da violência doméstica cria mais direitos processuais para as alegadas vitimas deste crime do que para alegadas vitimas de tentativa de homicídio. Prevê casas de acolhimento para mulheres vitimas de violência doméstica e para as vitimas homens... nada. Além de que o estatuto de vitima não depende de validação por autoridade judicial mas apenas de queixa... Enfim... mais uma lei cheia de qualidade.... Vamos ver quantos falsos conflitos, esta lei, irá acrescentar... Já agora é curioso verificar os dados destas associações com o MAI, porque as diferenças são monumentais. Por exemplo, na legenda da fotografia que acompanha a noticia estão contabilizadas 32 vitimas só do sexo femenino até Agosto de 2008. No entanto, até 31 de Outubro o MAI registava 9 mortes, independentemente do sexo, vitimas de violência doméstica. Os dados podem ser consultados no link (http://www.mai.gov.pt/data/documentos/%7B76D3C32A-9691-4456-AF6B-3F6B4EEA4392%7D_RASI2007_Versao-Parlamento.pdf).
Não me interpretem mal, não estou a dizer que a violência doméstica sobre as mulheres não é uma triste realidade. Mas não se pode corrigir um "erro" com outro "erro". E infelizmente por parte dos nossos legisladores isso vem sendo habitual, nesta em em muitas outras situações.