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terça-feira, 17 de março de 2009

Quando a luz se apaga e a torneira não corre



Era uma vez... Um lugar perdido em memórias medievais. Dá pelo nome de Matinho, no concelho de Santa Cruz, Ilha de Santiago.

Guardado pelo silêncio dos vales e serras, acolhe olhares cansados da escuridão do tempo e das secas constantes.

Não há interruptores, não há televisão, não há frigoríficos, não há fogões. A luz não se apaga nem se acende, a àgua só corre na nascente.

Apenas algumas velas ou candeeiros a petróleo iluminam o final de tarde naquela povoação. O sol é quem comanda a vida das três mil pessoas que vivem neste lugar do antigamente. Uma pausa prolongada numa linha cronológica.

Os primeiros raios anunciam o despertar. Começa um novo dia e as próximas horas são de grande esforço.



As mulheres preparam os burros, carregados com bidons, para irem até à ribeira mais próxima em busca de àgua. Os animais asssumem-se como a única forma de transporte.

Cinco quilómetros a pé em nome da sobrevivência, num percurso que demora cerca de trinta minutos. Por vezes, espera-se numa fila só para encher uma caneca.

Antes dos estudos, os mais novos ajudam na árdua tarefa, enquanto os homens tratam da agricultura local. Aqui é a Natureza que dá.

Maria Alice inicia o ritual diário. Depois da caminhada até à ribeira, dá banho aos dois filhos. Estes nem reclamam da temperatura fria, típica da água de nascente.
O banho tem de ser rápido, pois não há espaço para o desperdício.

Espaço Multiusos do Matinho. Um local com poucos meses de vida. Neste edifício, os habitantes de palmo e meio vivem a sua infância da maneira que é possível.



São escassos os brinquedos, são escassos os livros, e os bens necessários. A água não corre pelas torneiras e a sede mata-se com as poucas garrafas trazidas de casa.

O horário de entrada impõe-se às 8h30 da manhã, enquanto que a saída é uma incógnita. Tudo depende da chegada do pôr-do-sol. Tal como os seus pais, avós, irmãos, tios e primos, as 37 crianças aguardam a chegada da tal energia prometida.

Escola “A Turminha”, no centro da capital. Neste espaço, que acolhe cerca de 200 crianças, vive-se sem a preocupação de assistir a uma aula à luz das velas ou com o medo de não ter água para lavar as mãos.



Cada menino ou menina tem a sua própria garrafa e pode ir à casa de banho, tranquilamente sem encontrar um papel que indique “fora de serviço”.

No entanto, nos meses de Verão, a situação muda de figura. O contraste da ruralidade faz uma breve passagem pelo presente urbano. Apenas por alguns dias ou semanas, os cortes de água e de luz são uma constante (tornam-se habituais).

A escassez de água e a má política de gestão de recursos hídricos. A deficiência energética e a grande dependência de electricidade importada. Problemas espalhados pelas nove ilhas habitadas de Cabo Verde e uma só empresa para dar conta do recado.

A Electra, empresa de produção e distribuição de água e energia, nacionalizada em 2008, após a saída da parceira portuguesa EDP.

As dívidas elevadas da empresa aos vendedores de gasóleo, o não pagamento das facturas dos consumidores, a electricidade clandestina. Três causas. Vários culpados. A esperança na linha da frente daqueles que anseiam por energia 24 horas.

No meio rural mais de 51% dos agregados familiares, utilizam petróleo e velas para iluminação. 66% das famílias utilizam (recorrem à) lenha para cozinhar.
Pouco mais de três quartos da população tem uma fonte de água a menos de 15 minutos e nas localidades do interior apenas 22% tem acesso à água canalizada da rede pública.

Por isso, no Matinho o almoço é feito ao ar livre, sem energia, sem tomadas eléctricas, sem fogões ou microondas. A lenha aquece os tachos, os pratos lavam-se como se pode.

O tempo não volta atrás, o tempo não espera por ninguém e a população daquela terra olha para os ponteiros do relógio ou para as folhas do calendário na esperança de que um dia o seu tempo seja vivido de outra forma.

Em curso está o Projecto Integrado da Povoação do Matinho, uma proposta entregue à Embaixada dos Estados Unidos da América, que envolve um investimento de cerca de sete mil contos.

Abertura de furos, Instalações eléctricas de geradores, construção de três reservatórios são algumas das prioridades que constam no plano.

Em Fevereiro deste ano, foi anunciado que o Governo de Cabo Verde prevê aumentar a produção da energia no país, com a instalação de quatro parques eólicos, orçados em cerca de 50 milhões de euros.

Este programa insere-se numa aposta forte do executivo nas energias renováveis, com o objectivo principal de reduzir a dependência de Cabo Verde em relação aos produtos petrolíferos, passando primeiramente, pelo desenvolvimento massivo das energias eólica, solar e também das ondas do mar.

Chega-se ao fim de tarde naquela localidade que dá pelo nome Matinho. O Sol anuncia que a escuridão está mais uma vez a chegar. Hoje, antes de deitar (antes da hora de dormir) as preces de sempre, amanhã a mesma rotina que não quer ir embora.

Nos entretantos, espera-se que a luz esteja à mercê de um simples clique e que a água não fique para sempre à distância de muitos quilómetros.



Nha Terra Nha CretcheU - RTP Africa
Quinta-feira, às 20h30 Cabo Verde 21h30, Portugal
Programa: Energias Renováveis

3 comentários:

Farroscal disse...

Um olhar atento, uma sensibilidade apurada. Excelente.

Margarida Conde disse...

Obrigada pelo elogio :) tento que a minha escrita seja fiel ao que os olhos veem

volte sempre

Ane disse...

Olá Margarida. Acho seu trabalho exelente, ele me faz acreditar que na internet ainda existem coisas boas.
Me identifiquei muito com o artigo, pois a Áfica é um lugar pelo qual sou apaixonada, apesar de morar no Brasil.
Parabéns!!!