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sexta-feira, 18 de junho de 2010

Saramago desafiou até ao último momento...



"Morreu José Saramago!" Escreveu numa mensagem uma amiga de Portugal através do Facebook... "acho que gostarias de saber".

Senti uma espécie de tristeza. Sentida mesmo. Li o "Evangelho Segundo Jesus Cristo", ainda na adolescência e rendi-me. Mesmo sem a pontuação exigida, com agressividade das palavras tão criticada "“O filho de José e Maria nasceu como todos os filhos dos homens, sujo do sangue de sua mãe, viscoso das suas mucosidades e sofrendo em silêncio. Chorou porque o fizeram chorar, e chorará por esse mesmo e único motivo", uma visão nua e crua de um assunto delicado que provoca fúrias, iras, mágoas, perante um Saramago sem meias medidas para dizer o que pensa sobre Jesus e o seu Deus.

“Dizer um anjo que não é anjo de perdões, ou nada significa, ou significa demasiado, vamos por hipótese, que é anjo das condenações, é como se exclamasse, Perdoar, eu, que ideia estúpida, eu não perdoo, castigo. Mas os anjos, por definição, tirando aqueles querubins de espada flamejante que foram postos pelo Senhor a guardar o caminho da árvore da vida para que não voltassem pelos frutos dela os nossos primeiros pais, ou os seus descendentes, que somos nós, os anjos, íamos dizendo, não são polícias, não se encarregam das sujas mas socialmente necessárias tarefas de repressão, os anjos existem para tornar-nos a vida mais fácil, amparam-nos quando vamos a cair ao poço, guiam-nos no perigoso passo da ponte sobre o precipício, puxam-nos pelo braço quando estamos quase a ser atropelados por uma quadriga sem freio ou por um automóvel sem travões. Um anjo realmente merecedor de Jesus (...)”.

Saramago foi assim... Desafiou no Ensaio sobre a Cegueira, Terra do Pecado o seu primeiro livro aos 25 anos, Memorial do Convento que conquistou o público e a critica, A Caverna, o seu último romance Caim... Tantos outros... todos eles com doses certas de ironia, arrogância saudavelmente lida e revivida em muitos dos nossos pensamentos, mas que por vezes temos medo de os colocar cá para fora.

Ganhou os melhores prémios que um escritor pode desejar: Prémio Nobel da Literatura em 1998, Prémio Camões, foi um escritor, argumentista, jornalista, dramaturgo, contista, romancista e poeta português e acima de tudo... foi um critico sempre que achou que fosse necessário, mesmo que implicasse voltar as costas ao seu país.

Foi polémico... mesmo não concordando com algumas das suas ideias, comentários, opiniões, é de louvar... a maneira como nunca baixou a cabeça, nunca dando espaço para venias circunstâncias... porque esse não era Saramago... E até o Papa não se livrou de estar na mira das suas palavras despidas de qualquer conceito pré-definido.

Viveu uma grande vida, uma vida cheia... levou o nome de Portugal além-fronteiras, apesar de se ter auto-exilado na Ilha de Lanzarote, nas Ilhas Canárias.

Hoje Portugal e o Mundo perdeu mais um grande escritor e um grande Homem!

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